"O maestro é a pediatria”
Notas iniciais sobre expertises, associações e agregados científicos durante a epidemia de Zika Vírus em Recife/PE.
Palavras-chave:
Vírus Zika, Pesquisa clínica, CriançasResumo
Atualmente, a hipótese de que o Zika Vírus atravessa a barreira placentária, infecta fetos e gera alterações congênitas é amplamente aceita pela comunidade científica. Esse consenso, no entanto, resultou de um intenso esforço da ciência local. Em 2015, quando o aumento de casos de microcefalia nas maternidades pernambucanas chamou a atenção da comunidade médica e científica, diversas hipóteses foram levantadas—de agentes infecciosos a fatores ambientais. A urgência da resposta exigiu que cientistas se associassem, formando redes interdisciplinares que mobilizaram expertise, financiamento e infraestrutura. Entre os elementos centrais para a condução desses estudos, estava a capacidade de acessar e recrutar participantes. Neste artigo, examino como um grupo de pesquisa consolidado no cenário internacional se estruturou para conduzir estudos clínico-epidemiológicos sobre o Zika. A partir de entrevistas realizadas em 2023, analiso a relação entre ciência e assistência, destacando como as parcerias com a clínica pediátrica foram essenciais para a viabilização dos estudos. Argumento que, em um contexto onde a pesquisa biomédica ocorre majoritariamente no SUS, a participação das famílias não pode ser dissociada das condições de acesso à saúde. Se, para os cientistas, essas parcerias garantiram a produção de conhecimento, para as famílias, a pesquisa representou uma via alternativa para assistência especializada. Assim, compreender a construção dessa rede permite refletir sobre os limites e possibilidades da ciência em tempos de emergência sanitária.
Referências
BELL, T. M.; FIELD, E. J.; NARANG, H. K. Zika Virus Infection of the Central Nervous System of Mice. Archiv für die gesamte Virusforschung, v. 35, p. 183-193, 1971.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.813, de 11 de novembro de 2015. Declara Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) por alteração do padrão de ocorrência de microcefalia no Brasil. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 215, p. 37, 12 nov. 2015.
CASTRO, Rosana. Economias políticas da doença e da saúde: uma etnografia da experimentação farmacêutica. São Paulo: Hucitec, 2020.
CRANE, Johanna Tayloe. Scrambling for Africa: AIDS, expertise, and the rise of American global health science. Ithaca: Cornell University Press, 2013.
DINIZ, Débora. Zika: do sertão nordestino à ameaça global. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
FIALHO, Flávia; PALÁCIOS, Marisa. A participação de crianças em protocolos de pesquisa: uma revisão de literatura. Revista Brasileira de Bioética, v. 10, n. 1-4, p. 77-91, 2014.
FLEISCHER, Soraya. Fé na ciência? Como as famílias de micro viram a ciência do vírus Zika acontecer em suas crianças no Recife/PE. Anuário Antropológico [Online], v. 47, n. 1, p. 170-188, 2022.
HARAWAY, Donna. A game of cat’s cradle: science studies, feminist theory, cultural studies. Configurations, Baltimore, v. 2, n. 1, p. 59–71, 1994.
KUROGI, H.; INABA, Y.; TAKAHASI, E.; SATO, K.; GOTO, Y. Experimental Infection of Pregnant Goats with Akabane Virus. National Institute of Animal Health Quarterly, v. 17, p. 1–9, 1977.
LATOUR, Bruno. Reagregando o Social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. Trad. Gilson César Cardoso de Sousa. Salvador/Bauru: Edufba/Edusc, 2012.
LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. A vida de laboratório: A produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997.
LÖWY, Ilana. Zika no Brasil: história recente de uma epidemia. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2019.
LUZ, Kleber Giovanni; SANTOS, Glauco Igor Viana dos; VIEIRA, Renata de Magalhães. Febre pelo vírus Zika. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, v. 24, n. 4, p. 785-788, dez. 2015.
MOL, Annemarie. The body multiple: ontology in medical practice. Durham; London: Duke University Press, 2002.
MUNDARÉU. #3 A pontinha da pontinha do iceberg. [Locução de]: Laura Coutinho. [S.l.]: Mundaréu, 12 jun. 2023. Podcast. Disponível em: https://mundareu.labjor.unicamp.br/a-pontinha-da-pontinha-do-iceberg/. Acesso em: 14 jul. 2023.
MUSSO, D. et al. Potential for Zika virus transmission through blood transfusion demonstrated during an outbreak in French Polynesia, November 2013 to February 2014. Eurosurveillance, [s.l.], v. 19, n. 14, p. 20761, 2014.
PARSONSON, I. M. et al. Transmission of Akabane virus from the ewe to the early fetus (32 to 53 days). Journal of Comparative Pathology, v. 99, n. 2, p. 215–227, 1977.
REIS-CASTRO, Luísa. Vectors of Health: Epidemics, Ecologies, and the Reinvention of Mosquito Science in Brazil. 2021. Tese (Doutorado em História, Antropologia e Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade) — Massachusetts Institute of Technology, Cambridge, 2021.
SEGATA, Jean. LATOUR, Bruno. Reagregando o Social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. Ilha – Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 14, n. 1–2, p. 238–243, jul./dez. 2012.
VALIM, Thais. Fazendo ciência, fazendo a Síndrome Congênita do Vírus Zika: práticas, relações e infraestruturas científicas na resposta à epidemia de Zika em Recife/PE. 2025. Tese (Doutorado em Antropologia Social) — Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de Brasília, Brasília, 2025.
VIEIRA, J. et al. Perfil dos ensaios clínicos envolvendo crianças brasileiras. Cadernos de Saúde Pública, v. 33, n. 5, p. 1-11, 2017.
Publicado
Versões
- 08/19/2025 (2)
- 07/30/2025 (1)
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Thais Maria Moreira Valim

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.











