Pesquisa em Agroecologia
reflexões a partir do estudo de sistemas locais de conservação e uso de sementes crioulas
DOI:
https://doi.org/10.33240/rba.v15i3.23272Palavras-chave:
Construção do Conhecimento Agroecológico, Agrobiodiversidade, Epistemologia, Agricultura Familiar, Milho (Zea mays L.)Resumo
As famílias agricultoras desempenham papel central na conservação das sementes crioulas, mas é escassa a presença desse conhecimento na produção científica sobre conservação da biodiversidade agrícola e alimentar, resultando numa prática científica que reforça um modelo único de agricultura. A maior parte dos estabelecimentos agropecuários no Brasil desenvolve formas de manejo dos agroecossistemas que não aquelas preconizadas pela agricultura convencional. Essa situação indica a existência de um vasto repertório de práticas e de conhecimentos que não são diretamente informados pela pesquisa agropecuária. Trata-se, na verdade, de uma riqueza de enfoques e de experiências e mesmo de desafios e limitações que, por outro lado, deixam de informar a pesquisa institucional sempre que esta adota um único enfoque de investigação. Argumento que, assim como o conhecimento científico, o conhecimento das famílias agricultoras também pode gerar estratégias fecundas de investigação, sendo que é a pesquisa em Agroecologia que fornece os pressupostos epistemológicos para integrá-los de forma a fortalecer a prática científica como um todo e as perspectivas e lutas desses agricultores e demais atores do mundo rural. A demonstração dessa tese passou por três objetivos: (i) entender o sistema local de conservação e uso da diversidade do milho crioulo desenvolvido por agricultores familiares da Zona da Mata de Minas Gerais; (ii) evidenciar o papel do conhecimento local no manejo dessas sementes; e (iii) demonstrar a fecundidade da pesquisa em Agroecologia. Para tanto, realizei estudo de campo por meio de visitas a famílias agricultoras, entrevistas semiestruturadas, observação participante, caminhadas pelas propriedades, oficina sobre seleção de sementes e registro fotográfico. Espigas e grãos de milho cultivados na região foram analisados a partir de seus descritores morfológicos. A parte teórica da pesquisa envolveu revisão de literatura especializada, acesso a dados oficiais e leitura de relatórios de encontros promovidos por organizações sociais. O eixo analítico desenvolve-se em torno ao modelo de interação entre ciência e valores proposto por Hugh Lacey, filósofo da ciência australiano radicado nos Estados Unidos. Concluo que são distintas as estratégias de pesquisa sobre recursos genéticos locais adotadas pela pesquisa agrícola convencional e pela pesquisa em Agroecologia. Isso porque a pesquisa em Agroecologia, assim como outras estratégias de investigação, é formada por um núcleo de valores cognitivos (epistêmicos) enredado em valores sociais (éticos). O núcleo dos valores cognitivos da pesquisa em Agroecologia, justamente por ser esta uma estratégia de pesquisa contextualizada, leva em consideração o conhecimento local das famílias agricultoras, e dessa forma contribui para fortalecer setores sociais que não têm suas perspectivas priorizadas pela ciência agrícola moderna. Essas qualidades distintivas permitem à pesquisa em Agroecologia explorar áreas do saber intencionalmente descobertas ou metodologicamente inalcançáveis pelas estratégias descontextualizadas. De qualquer forma, tendo como objetivo ser um enfoque científico plural, a pesquisa em Agroecologia não desconsidera contribuições geradas a partir dessas estratégias descontextualizadas. A pesquisa científica, para ser fecunda, deve ser informada por diferentes formas de saber. Disso decorre que a pesquisa em Agroecologia operacionaliza o diálogo de saberes, fortalecendo valores tradicionais da prática científica e ampliando suas possibilidades.
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