Contexto pra lá, contexto pra cá
contribuições antropológicas para a formação de psicólogos-psicoterapeutas
Palavras-chave:
cuidado racializado, antropologia da ciência, antropologia da saúde, saberes psi, etnografia com documentosResumo
Este artigo pretende discutir possíveis contribuições da ciência antropológica para a formação de psicólogos, em especial no que se refere à atenção ao contexto sociocultural para um cuidado racializado em saúde mental. Como recorte de uma investigação etnográfica de maior escala junto a um grupo de estágio e serviço de psicoterapia racializada, analiso os documentos que regem a formação de psicólogos em uma universidade do centro-oeste brasileiro, especificamente, o Projeto Pedagógico do curso de Psicologia (PPC). Na análise deste documento, identifiquei e estranhei determinadas imposições de significação, como na demasiada utilização da palavra “contexto”, usado de forma ambígua, ora se referindo a ambiente, ora como sinônimo de cultura. A partir desta identificação, argumento que esta disposição reflexiva, de estranhamento e relativismo, é característica da pesquisa antropológica e pode contribuir para a formação de profissionais da saúde mental, no que se refere à desnaturalização do universalismo ontoepistêmico dos saberes psi. Portanto, aposto na antropologia como ferramenta metodológica que não oferece respostas manualísticas, mas pode gerar reflexividade por meio de perguntas, para potencializar a comunicação entre alteridades, a mediação diplomática entre mundos e um cuidado em saúde mental que ressoa com o contexto sociocultural, que seria, então, racializado.
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- 08/19/2025 (2)
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