Cheiros de sobrevivência: a resiliência da herança olfativa e gustativa iorubá no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v9i2.60265Palavras-chave:
Olfato, Patrimônio imaterial, Cultura iorubá, Bahia, Brasil, Azeite de dendêResumo
Este trabalho investiga como cheiros e sabores preservam e comunicam a herança iorubá na Bahia, articulando memória, cura e identidade. A partir de revisão histórica e etnografia sensorial, o estudo relaciona a medicina iorubá e o axé à vida ritual e culinária baiana, com foco no azeite de dendê como âncora olfativo-gustativa que conecta comida de santo, práticas domésticas e espaço público. O mapeamento de campo abrangeu a Lavagem do Bonfim e a Festa de Iemanjá, em Salvador, e observações comparativas no Oduduwa Templo dos Orixás, em São Paulo. Identificaram-se notas recorrentes como lavanda, arruda, ervas e dendê, além de sobreposições botânicas na água de cheiro e em oferendas, evidenciando um continuum sensorial transatlântico. O estudo mostra que, sob ciclos históricos de repressão, linguagens sensoriais discretas sustentaram a continuidade ritual e a transmissão de saberes. Metodologicamente, defende-se integrar etnografia, terminologia padronizada de odor e química analítica para vincular perfis químicos a categorias êmicas e prescrições oraculares. Conclui-se que o olfato e o paladar operam como vetores resilientes de patrimônio e cuidado, mas enfrentam ameaças contemporâneas ligadas a mudanças ambientais e à industrialização do dendê. Recomenda-se protocolar arquivos sensoriais, fortalecer políticas de salvaguarda e apoiar cadeias tradicionais que mantêm o sabor, o aroma e o sentido cultural dessa herança.
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