Masculinidades e violência sexual

uma análise crítica de decisões judiciais

Autores

  • Clarissa Campani Mainieri Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  • Izabela de Faria Miranda Universidade Federal de Minas Gerais
  • Carmen Hein de Campos Universidade Federal de Rio Grande

Palavras-chave:

Violência Sexual, Patriarcado, Masculinidades, Sistema de Justiça Criminal

Resumo

O artigo analisa o papel do sistema de justiça criminal na reprodução da violência sexual a partir da gestão institucional das masculinidades. Parte-se da compreensão da violência sexual como fenômeno estrutural, inscrito em relações históricas de poder, para articular aportes da teoria feminista sobre patriarcado, políticas de masculinidade e cultura do estupro com a análise de duas decisões judiciais proferidas em casos de estupro julgados pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Sustenta-se que o estupro não é apenas julgado pelo sistema de justiça, mas também simbolicamente produzido por ele, uma vez que magistrados definem os contornos do que é reconhecido como violência sexual, quem pode ser considerada a vítima, quem é reconhecido como agressor e quais condutas masculinas são desresponsabilizadas, normalizadas ou legitimadas. A metodologia é a análise das decisões judiciais, seguida de problematização teórica. Selecionaram-se dois casos paradigmáticos que permitem evidenciar como scripts de masculinidade — como honra, virilidade, direito ao sexo, controle e racionalidade masculina — operam no discurso judicial para minimizar ou negar a violência sexual. Pela problematização de categorias como cultura do estupro, sexualidade violenta, pornografia e virilidade sexual, demonstra-se que determinadas concepções misóginas de sexualidade são naturalizadas nas decisões judiciais e ampliam a tolerância institucional à violência contra as mulheres. Conclui-se que a prevenção efetiva da violência de gênero exige a problematização, a crítica e a desconstrução das masculinidades que o sistema de justiça valida e protege, bem como a centralidade da autonomia e da liberdade sexual das mulheres na interpretação jurídica da violência sexual.

Biografia do Autor

  • Clarissa Campani Mainieri, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

    Mestre em Direitos Humanos (UniRitter); Integrante da Red ALAS (Red Latino-americana de acadêmicas e acadêmicos de Direito); Pesquisadora do GCRIM - Grupo de Pesquisa em Ciências Criminais/UFRJ; Assessora de Desembargadora no Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.

  • Izabela de Faria Miranda, Universidade Federal de Minas Gerais

    Doutoranda em Educação, Gênero e Masculinidades da FaE-UFMG; Cofundadora da Indômitas Coletiva Feminista – MG; Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Segurança Pública da Fundação João Pinheiro (NESP-FJP); Advogada.

  • Carmen Hein de Campos, Universidade Federal de Rio Grande

    Doutora em Ciências Criminais, PUCRS; Professora visitante no Mestrado em Direito e Justiça Social da Universidade Federal de Rio Grande – FURG; Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Direito do Centro Universitário Autônomo do Brasil – UniBrasil; Integrante da Red Alas (Rede Latino-americana de acadêmicas e acadêmicos de Direito).

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Publicado

16.04.2026

Como Citar

Masculinidades e violência sexual: uma análise crítica de decisões judiciais. Revista Latino-Americana de Criminologia, [S. l.], v. 6, n. 1, p. 344–378, 2026. Disponível em: https://periodicostestes.bce.unb.br/index.php/relac/article/view/61249. Acesso em: 6 maio. 2026.