NOVA CHAMADA - NÚMERO TEMÁTICO - "ESPAÇOS FRONTEIRIÇOS EM TRANSFORMAÇÃO: TEMPORALIDADES, TERRITORIALIDADES E MOBILIDADE NA AMÉRICA LATINA E NO CARIBE"

2026-04-22

Coordenação do Número Temático:

Gabriela Pinillos (Unidad de Investigación sobre Representaciones Culturales y Sociales, UNAM - Campus Morelia, México. Miembro GT Migraciones y Fronteras Sur-Sur)
Lady Junek Vargas León (UNAM, México)
Iréri Ceja (Centro Universitario de Arte, Arquitectura y Diseño, Universidad de Guadalajara, México. Miembro GT Migraciones y Fronteras Sur-Sur)

Prazo para envio de artigos: 30 de setembro de 2026
Data de publicação do número: abril de 2027

 

Desde o início do século XXI, os estudos sobre fronteiras e mobilidade na América Latina e no Caribe têm documentado uma ampla variedade de processos que permitem compreender a complexidade das dinâmicas transfronteiriças contemporâneas. Diversas pesquisas mostraram, por exemplo, como a fronteira se converte em um espaço de espetacularização política e midiática, onde governos e meios de comunicação constroem narrativas que apresentam esses territórios como cenários de ameaça, desordem ou exotismo. Essa "fronteira espetáculo" (Lois, 2017), expressa no emprego de tecnologias de vigilância, como drones, ou em metáforas desumanizantes sobre populações migrantes, funciona como um dispositivo que legitima políticas de controle, securitização e gestão biopolítica da mobilidade (Morales, 2024; Domenech et al., 2022; Estévez, 2020; Mezzadra e Brett, 2017; Varela, 2015).

Ao mesmo tempo, estudos etnográficos e socioeconômicos têm evidenciado a existência de "ilegalismos legítimos" em contextos fronteiriços (García e Gonzáles, 2024). Atividades como o contrabando varejista ou o comércio informal transfronteiriço, frequentemente categorizadas pelos Estados como ilícitas, constituem, em escala local, estratégias socialmente aceitas de reprodução material diante da precariedade laboral e da ausência de alternativas econômicas formais. Esses achados dialogam com uma longa tradição analítica que examina as tensões entre legalidade estatal e legitimidade social em territórios de fronteira.

Outro conjunto de pesquisas tem enfatizado o papel dos documentos e das práticas de documentação em espaços fronteiriços (Albuquerque e Pava, 2024; Velasco, 2022). Em regiões como a tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Colômbia e Peru, por exemplo, a posse de documentos de mais de um país pode constituir uma estratégia cotidiana para acessar serviços, direitos e recursos em contextos de garantias estatais desiguais. Essas práticas revelam como as populações fronteiriças negociam o pertencimento político e a cidadania em cenários de sobreposição normativa e territorial.

Em conjunto, esses trabalhos têm oferecido olhares multiescalares sobre as fronteiras, dedicando especial atenção ao trânsito de populações migrantes, particularmente desde a segunda década do século XXI. Da mesma forma, têm destacado as dinâmicas transfronteiriças e as formas de "fronteiriçidade" (Benedetti, 2024) que excedem o limite geográfico, sublinhando a construção social, política e simbólica das fronteiras para além de sua dimensão territorial.

Partindo dessas contribuições, este número temático propõe voltar o olhar para a fronteira geográfica como um espaço que antecipa transformações mais amplas nos regimes contemporâneos de mobilidade e governança territorial. Nesse sentido, propõe-se um exercício analítico que permita observar e narrar as fronteiras latino-americanas e caribenhas em perspectiva temporal, de modo algum linear ou evolutivo, mas como cenários produzidos historicamente a partir de múltiplos processos sociais, políticos, econômicos e ambientais.

A proposta busca, portanto, colocar em diálogo transformações contemporâneas com aproximações históricas, interrogando como as fronteiras geográficas mudaram ao longo do tempo e como essas transformações se manifestam em dimensões espaciais, ecológicas, demográficas, subjetivas e políticas, tanto em escala nacional quanto internacional. Nesse marco, torna-se especialmente relevante considerar a passagem de ciclos de integração regional para momentos de fragmentação ou desintegração, fenômeno assinalado por diversos autores no contexto recente da América Latina (Domenech, 2017; Ramírez et al., 2019).

Do ponto de vista teórico, o número dialogará com enfoques provenientes dos estudos críticos de fronteira, da geografia política e humana, da antropologia das mobilidades, bem como com perspectivas como a teoria do ator-rede, que convidam a considerar o papel dos agentes não humanos, das infraestruturas, dos dispositivos técnicos e das materialidades espaciais na produção dos territórios fronteiriços. Da mesma forma, serão recuperadas contribuições da etnografia de fronteira, da história social dos territórios limítrofes e das aproximações multiescalares que permitem observar a relação entre dinâmicas locais, políticas estatais e processos transnacionais.

Em termos metodológicos, buscam-se contribuições que, a partir de perspectivas etnográficas, geográficas, históricas ou interdisciplinares, permitam analisar como as transformações fronteiriças se produzem no tempo. Serão especialmente valorizados trabalhos que integrem análises históricas, estudos comparativos entre distintas fronteiras, reconstruções territoriais, etnografias e metodologias que incorporem a dimensão material e espacial desses territórios, assim como esforços que incorporem narrativas fronteiriças (Pinillos, 2023).

Dado que o conceito de fronteira pode expandir-se para múltiplas dimensões analíticas, este número propõe delimitar o foco nas fronteiras nacionais como espaços geográficos concretos, entendidos como lugares socialmente habitados, politicamente disputados e materialmente configurados. Mais do que abordar a fronteira como metáfora ou conceito abstrato, busca-se privilegiar pesquisas que examinem os limites territoriais legitimados entre Estados e as dinâmicas sociais que se produzem em torno deles, atentando ao "ponto de vista do lugar" e às experiências de quem vive, transita ou trabalha nesses espaços.

Nesse sentido, o número convida a refletir sobre as fronteiras latino-americanas e caribenhas como territórios em permanente reconfiguração, sensíveis a conjunturas políticas, econômicas e ambientais. Processos como as mudanças nas políticas migratórias, as "crises humanitárias", as transformações nos regimes de mobilidade ou as tensões geopolíticas recentes podem alterar rapidamente a vida nesses espaços, produzindo fenômenos como a intensificação do controle, a reconfiguração de economias locais ou mesmo o despovoamento de certas zonas fronteiriças.

Em particular, esperam-se artigos que abordem os seguintes temas:

  1. Fronteiras terrestres e marítimas: olhar geográfico, espacial e etnográfico.
  2. Análises conjunturais que dialoguem com perspectivas de média e longa duração na reconfiguração das fronteiras.
  3. "Respostas" locais e transnacionais nas conjunturas migratórias.
  4. Da integração à governança regional: efeitos fronteiriços na mudança de paradigma.
  5. Impacto do desfinanciamento nos organismos internacionais e inflexões da infraestrutura social (trans)fronteiriça.
  6. Perspectivas que considerem atores não humanos nas dinâmicas das fronteiras.
  7. Efeitos ecológicos das políticas humanitárias e de controle fronteiriço.
  8. Dinâmicas pendulares transfronteiriças que persistam aos "fechamentos" de fronteiras.

Referencias bibliográficas

Albuquerque, José L. y Paiva, Luiz F. (2024). Ciudadanía, movilidades y circulaciones económicas en el territorio de la triple frontera amazónica entre Brasil, Colombia, Perú. En Alejandra Ramírez Soruco, Yolanda Alfaro y Alina Stoica (comp.), Fronteras y problemáticas ciudadanas. Mirada Comparativa entre Unión Europea y Región Latinoamericana (pp. 234-251). Cochabamba: Universidad Mayor de San Simón, Universidad de Oradea, CLACSO y Programa Jean Monnet. https://doi.org/10.5281/zenodo.11371940

Benedetti, Alejandro (2024). Múltiples escalas espaciales y temporales en la construcción cotidiana de la frontera boliviano-argentina. En Alejandra Ramírez Soruco, Yolanda Alfaro y Alina Stoica (comp.), Fronteras y problemáticas ciudadanas. Mirada Comparativa entre Unión Europea y Región Latinoamericana (pp. 27-53). Cochabamba: Universidad Mayor de San Simón, Universidad de Oradea, CLACSO y Programa Jean Monnet. https://doi.org/10.5281/zenodo.11371940

Estévez, Adriana (2020). Biopolítica y necropolítica: ¿constitutivos u opuestos? En Amarela Varela (comp.), Necropolítica y migración en la frontera vertical mexicana. Un ejercicio de conocimiento situado (pp. 13-44). Ciudad de México: Universidad Nacional Autónoma de México.

Domenech, Eduardo, Basualdo, Lourdes y Pereira, Andrés (2022). Migraciones, fronteras y políticas de datos: nuevos medios de control del movimiento en el espacio sudamericano. En Liliana Rivera Sánchez, Gioconda Herrera y Eduardo Domenech (coords.), Movilidades, control fronterizo y luchas migrantes (pp. 317-355). Buenos Aires: CLACSO y Siglo XXI.

Domenech, Eduardo (2017). Las políticas de migración en Sudamérica: elementos para el análisis crítico del control migratorio y fronterizo. Terceiro Milênio: Revista Crítica de Sociologia e Política, 8(1), 19-48.

García, Armida Concepción y González Hernández, Roberto (2024). Comercialización de mercancías textiles: el impacto de la moda rápida trasnacional en México. En Alejandra Ramírez Soruco, Yolanda Alfaro y Alina Stoica (comp.), Fronteras y problemáticas ciudadanas. Mirada Comparativa entre Unión Europea y Región Latinoamericana (pp. 128-138). Cochabamba: Universidad Mayor de San Simón, Universidad de Oradea, CLACSO y Programa Jean Monnet. https://doi.org/10.5281/zenodo.11371940

Lois, María (2017). Geopolítica de la Paz y estudios de frontera. La Migraña, 22, 94-95.

Mezzadra, Sandro y Neilson, Brett (2017). La frontera como método o la multiplicación del trabajo. Madrid: Traficantes de sueños.

Morales, Agustín (2024). Espacios de excepción y tecnosecuritización de la movilidad humana en Norteamérica. Del control corpóreo al algorítmico-digital. Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales, 69(252), 179-210. https://doi.org/10.22201/fcpys.2448492xe.2024.252.89335

Pinillos, Gabriela (2023). El puente quebrado. En Yolanda Alfaro y Roxana Rodríguez (coords.), Venida sin paso: narrativas fronterizas desde nuestra América (pp. 81-88). Buenos Aires: CLACSO.

Ramírez, Jacques, Ceja, Iréri y Alfaro, Yolanda (2019). La Conferencia Sudamericana de Migraciones y el Proceso Puebla: entre la seguridad y los derechos. PÉRIPLOS. Revista de investigación sobre migraciones, 3(1), 11-36.

Varela, Amarela (2015). La “securitización” de la gubernamentalidad migratoria mediante la “externalización” de las fronteras estadounidenses a Mesoamérica. Con-temporánea, 2(4). https://revistas.inah.gob.mx/index.php/contemporanea/article/view/6270

Velasco, Laura (2022). De fronteras, documentos y experiencias de movilidad laboral entre México-Guatemala. Trace (México, DF) 82, 154-181. https://doi.org/10.22134/trace.82.2022.823