A democracia antiga revisitada pelos estudos de gênero: o sequestro das cidadãs na historiografia da Atenas clássica
DOI:
https://doi.org/10.14195/1984-249X_34_27Palavras-chave:
Cidadania ateniense, Gênero na antiguidade, Participação política feminina, Relação entre política e religiãoResumo
Neste artigo, investigamos o impacto da inclusão da categoria gênero, articulada a uma perspectiva decolonial, na análise da cidadania ateniense, especificamente na Atenas clássica democrática. Contrariamente à concepção tradicional que vê a polis como um "clube de homens", muito influenciada por certos estudos sobre Aristóteles acerca de cidadania, a leitura destaca a presença explícita de mulheres cidadãs nas sociedades helênicas antigas. Ao centrar o debate em aspectos vinculados ao contexto antigo e atentar para a projeção de referências modernas, propomos uma reflexão mais ampla sobre as práticas políticas na antiguidade. Estudos contemporâneos têm revelado que a cidadania grega antiga não se baseia exclusivamente na exclusão sistemática das mulheres de todos os contextos. Mulheres cidadãs são mencionadas e representadas em diversas fontes às quais temos acesso. A persistência do estereótipo do "clube de homens" na política antiga é questionada, com destaque para a importância da religião no contexto cívico, onde mulheres desempenham papéis ativos. Indagamos sobre o interesse contemporâneo em perpetuar a visão da polis como um espaço de atuação exclusivamente masculina e como essa percepção afeta a compreensão da participação das mulheres no cenário político. Concluímos destacando a importância de revisitar textos antigos sob uma perspectiva crítica contemporânea, feminista e decolonial, desafiando a ideia de que as mulheres sempre estiveram à margem da política.
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